Largamente utilizada na música popular, a escala menor melódica é considerada como um elemento indispensável no jazz e na MPB. Além de seu emprego melódico, a harmonia gerada por ela resulta em uma família de acordes com sonoridades próprias, definindo relações acordes/escalas primordiais na improvisação moderna.

Estrutura

A escala menor melódica – também chamada de “escala menor melódica de jazz”, para diferenciá-la da menor melódica clássica – possui a estrutura intervalar mostrada no exemplo 1. Observe que a escala possui estrutura semelhante à escala dórica, porém com a sétima maior em vez de menor, e que ela também corresponde a uma estrutura diferente da escala diatônica, apresentando quatro tons inteiros seguidos (exemplo 2). Outro fator importante é a presença de uma estrutura simétrica lhe confere uma sonoridade característica: a tríade aumentada – localizada entre 3m / 5 / 7M (exemplo 3) -, aplicável tanto no contexto melódico quanto no harmônico.

Campo harmônico menor melódico

Você pode agrupar as notas da escala criando um campo harmônico por intermédio do empilhamento de terças. No exemplo 4 você tem a escala de Dó menor melódica. A partir disso, veja o exemplo 5, com tríades. Observe que, diferentemente dos campos harmônicos maior e menor, que possuem tríades maiores, menores e diminutas, aqui é gerada a tríade aumentada no bIII(5#). No agrupamento em tétrades (exemplo 6) também são gerados acordes não utilizados nas escalas diatônicas – Im(7M) e bIII7M(5#). Observe que os dois possuem tríades aumentadas na sua estrutura (notas Eb, G e B) e note também a presença de acordes com estruturas iguais nos graus IV7, V7, VIm7(b5) e VIIm7(b5). Os acordes gerados por essa escala criam sonoridades importantes, largamente utilizadas na música brasileira e no jazz.

Modos da menor melódica

Se você considerar cada grau da escala menor melódica como uma nova tônica, isso pode gerar sete modos com estruturas intervalares diferentes. Cada inversão da escala menor melódica é de importância não apenas melódica, mas também harmônica. Como você vai ver a seguir, a menor melódica gera uma série de acordes dominantes em alguns de seus modos, que podem ser utilizados no V grau de seqüências harmônicas. Observe cada escala gerada a partir das tônicas da escala de C menor melódica e como os nomes das escalas são “emprestados” dos modos gregorianos.

Veja o exemplo 7 – primeiro modo (T 2 3m 4 5 6 7M 8). A partir desta estrutura de intervalos pode ser gerada uma família de acordes com as mesmas características, visto no exemplo 8 [Cm7M(9), Cm7M(11), Cm6(7M)]. A tétrade característica desse modo apresenta a sétima maior, formando uma tríade aumentada com 3m e 5.

No exemplo 9 – dórico b2 (segundo modo) (T 2b 3m 4 5 6 7 8) -, repare que apesar de poder montar uma família de acordes a partir dessa escala, você não terá um efeito diferente do modo dórico, a não ser pela 2b que, na verdade, não soa bem em um acorde menor pelo fato de criar trítono com a quinta do acorde. No exemplo 10 – lídio aumentado (terceiro modo) (T 2 3 4# 5# 6 7M 8) – veja que esta escala tem um som peculiar por apresentar sétima maior e quinta aumentada, tendo como acorde característico Eb7M(5#), mostrado no exemplo 11. Observe também a presença da tríade aumentada a partir da tônica.

No exemplo 12 – lídio dominante (quarto modo) (T 2 3 4# 5 6 7 8) -, você tem uma escala de extrema importância pela sonoridade característica. Seu acorde característico é F7(11#), mostrado no exemplo 13. Tal escala é muito utilizada na música nordestina. No exemplo 14 ­- mixolídio b13 (quinto modo) (T 2 3 4 5 b6 7 8) – você tem uma escala que apresenta como acorde característico o G7(b13) (exemplo 15), sendo a mesma muito usada nas vertentes mais tradicionais da música brasileira, como choro e samba. No exemplo 16 – eólio b5 (sexto modo) (T 2 3m 4 5b 6b 7 8) – está uma escala de sonoridade arrojada, correspondente ao modo lócrio, porém com a segunda maior, o que gera um acorde característico, Am7(b5/9) (exemplo 17).

No exemplo 18 – escala alterada (sétimo modo) (T 2b 2# 3 5b 5# 7 8) – está uma escala importantíssima na improvisação, que gera a família dos chamados “acordes alterados”. Observe que você pode expressar a estrutura intervalar com diversas enarmonias. Apesar de esse grau ser expresso no campo harmônico como um acorde meio diminuto, a escala tem a possibilidade de gerar acordes dominantes com 9b e 9#, e 5b e 5#. Desta maneira, temos uma família de acordes: B7(9b), B7(9#) – porém, sem a quinta justa – e B7(b5), B7(5#), B7(9#/b5), B7(b5/9b). Família de acordes alterados (exemplo 19).

O grande “pulo do gato” de tudo isso é que você pode utilizar esses acordes gerados não necessariamente nos graus nos quais eles são gerados. Por exemplo: os acordes gerados nos graus IV (lídio dominante), V (mixolídio b13) e VII (escala alterada) são todos aqueles que podem ser usados como dominantes, ou seja, o V grau de “alguém”.

  • A aplicação direta da relação “escala/acorde” também é eficaz na improvisação, independente do campo harmônico ou tonalidade utilizada. Exemplos:
  • Apresentado o acorde G7(11#) isoladamente, você pode utilizar a escala de G lídio dominante (ou D menor melódica) independente da tonalidade;
  • Na progressão Cm7 / Fm7 / G7(9#) / Cm7, você consegue usar para cada acorde os seguintes elementos: escala menor natural (C eólio), que corresponde à escala da tonalidade, (para Cm7), F dórico (inversão do C eólio) para Fm7 e escala de G alterada (ou Ab menor melódica) para G7(9#). Observe como tal uso enriquece a sonoridade do improvisador. Em contrapartida, exige raciocínio rápido. Desta maneira, você pode utilizar os modos da menor melódica para os acordes:
  • Cm7M – C menor melódico;
    C7M(5#) – C lídio aumentado (A menor melódica);
    C7(11#) – C lídio dominante (G menor melódica);
    C7(b13) – C mixolídio 13b (F menor melódica);
    Cm7(b5/9) – C eólio b5 (Eb menor melódica);
    Calt – C alterada (Db menor melódica).


    Prática

    Um bom ponto de partida para o estudo da escala menor melódica é a divisão do braço em cinco desenhos, que por sua vez podem ser transferidos para todas as regiões. Em todos os modos da escala, os desenhos serão os mesmos, obviamente pela manutenção da estrutura de tons e semitons. Porém, os intervalos estarão em posições diferentes de acordo com o modo.

  • Escala menor melódica: exemplos 20 (frase sobre o acorde de Am7M) e 21 (frase sobre a progressão Am / Am7M / Am7 utilizando a escala de A dórico para Am e Am7 e A menor melódica para Am7M);

  • Modo lídio aumentado: exemplos 22 [frase sobre o acorde de E7M(5#)] e 23 [frase sobre a progressão C7M / C7M(5#) / C7M(6)];
  • Modo mixolídio 13b: exemplos 26 [frase sobre o acorde de A7(b13)] e 27 [sobre a progressão Em7(b5) / A7(b13) / Dm7];
  • Modo Eólio b5: exemplos 28 [frase sobre Em7(b5)] e 29 [sobre a progressão Em7(b5) A7(b13) Dm7];
  • Escala alterada (modo superlócrio): exemplos 30 [sobre A7(9#)] e 31 [frase sobre a progressão Em7(b5) A7(9#) Dm7].
  • Modo Dórico b2: este modo apresenta uma sonoridade que não irá agregar muito ao músico, não representando algo de interessante na aplicação em tétrades menores;

    Conclusões

    A escala menor melódica tem importância prática para qualquer improvisador e para aquele que estuda harmonia de modo sério. Estudar as sonoridades de cada modo e de cada família de acordes gerado por eles é importante para a escolha de escalas sobre um determinado acorde. É essencial que você tenha paciência e organização para entender um assunto tão complexo e amplo.

    Procure estudar cada um dos modos na teoria e na prática, sempre tendo em mente a localização das notas e dos intervalos no braço do violão. Porém, é importante saber que todo esse estudo é um meio que deve ser aplicado em idéias musicais. Não esqueça que a transformação de teoria aplicada em música requer conhecimento e senso artístico.

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